Com as férias escolares, uma pergunta começa a ecoar em escolas, grupos de mensagens e conversas informais entre pais: “E agora? O que faço com meus filhos?” Como professor e como pai, faço questão de dizer desde o início: eu também tenho essa preocupação. Não tenho todas as respostas prontas. Mas reflito muito sobre esse tema.
É preciso reconhecer algo básico, mas fundamental: nem todas as famílias partem do mesmo lugar. Algumas conseguem oferecer viagens, cursos, colônias de férias ou atividades estruturadas. Outras não. E isso não define amor, zelo ou responsabilidade. Define realidades sociais, econômicas e culturais diferentes.
O que chama atenção, no entanto, é o desconforto coletivo diante do tempo livre. Criamos a ideia de que férias precisam ser ocupadas, preenchidas, planejadas. Como se o ócio fosse um problema a ser resolvido. E talvez ele não seja.
Vivemos uma infância marcada pelo excesso de estímulos. Telas por todos os lados, agendas cheias, atividades dirigidas, metas, desempenho e pouco espaço para o improviso. Quando a escola para, surge a sensação de vazio — e com ela, a urgência de substituir a rotina por outra igualmente cheia.
A ciência ajuda a olhar esse cenário com mais calma. Pesquisas em neurociência, como as conduzidas por Marcus Raichle, mostram que, nos momentos de ócio, o cérebro ativa o chamado modo padrão de funcionamento, associado à imaginação, criatividade, organização de pensamentos e construção de sentido. Esse estado é essencial para o desenvolvimento cognitivo e emocional, especialmente na infância.
Na mesma linha, estudos da psicóloga britânica Teresa Belton indicam que o tédio pode ser um importante estímulo para a criatividade infantil. Crianças que têm tempo livre tendem a desenvolver maior autonomia, iniciativa e capacidade de lidar com frustrações, enquanto aquelas excessivamente ocupadas passam a depender mais de estímulos externos.
Em outras palavras: o tédio não é ausência de aprendizado. Ele é uma forma diferente — e necessária — de aprender. Quando tentamos eliminar todo momento de ócio, acabamos produzindo efeitos colaterais importantes: diminuímos a autonomia das crianças, reduzimos a tolerância à frustração e enfraquecemos a capacidade de criar a partir do simples. As férias apenas tornam esse fenômeno mais visível.

Talvez a pergunta mais honesta não seja “o que faço com meus filhos nas férias?”, mas o que me incomoda quando vejo meus filhos sem nada para fazer? Ansiedade? Culpa? Medo de estar falhando como pai ou mãe?
Como educador físico, acredito que o papel da família não é ocupar cada minuto do dia, mas garantir presença, vínculo e segurança emocional. Brincar junto, caminhar, conversar sem pressa, sentar no chão, permitir o silêncio, a imaginação e até a bagunça criativa. Menos tela. Menos comando. Mais convivência.
Férias não são sobre ocupar o tempo. São sobre habitar o tempo. Talvez o problema não seja o tempo livre. Talvez seja o nosso medo dele. Medo do silêncio, do vazio e, principalmente, medo do que será ensinado nesse tempo.
E é justamente por isso que esse espaço não pode ser terceirizado. Não dá para entregar essa responsabilidade a uma tela de celular.
O tempo livre também educa — e a pergunta que fica é: quem está educando quando nós não estamos presentes?
*Junior Damiani é educador físico, fundador da VOM (Viva o Movimento) e professor do Colégio Dom Feliciano.
