Quantas mulheres ainda precisarão morrer para que a violência de gênero seja tratada como o que ela é: um problema estrutural? O Brasil encerrou 2025 com 1.470 feminicídios, o maior número dos últimos dez anos. O Rio Grande do Sul aparece entre os estados com mais casos: foram 80 mulheres assassinadas no último ano. E 2026 já começou de forma trágica, com ao menos 11 feminicídios em apenas 29 dias de janeiro. Não são episódios isolados, mas o retrato de uma cultura que naturaliza a violência contra mulheres.
O feminicídio é o desfecho mais cruel de uma escalada que começa no controle, no medo e no silêncio. Combatê-lo exige políticas públicas permanentes, orçamento, rede de proteção fortalecida e posicionamento firme do Estado. A Procuradoria Especial da Mulher da Assembleia Legislativa cumpre papel fundamental nesse enfrentamento, acolhendo vítimas, orientando e cobrando a efetivação da legislação. Também foi importante a recriação da Secretaria da Mulher, garantindo centralidade ao tema nas políticas públicas.
Mas é preciso ir além da resposta imediata. O combate à violência de gênero passa, fundamentalmente, pela educação. Falar sobre respeito, igualdade e limites desde a infância é estratégia de prevenção. Ensinar meninos a lidar com emoções e a enxergar meninas como iguais não é ideologia — é salvar vidas.
Experiências mostram isso. No Ceará, a educação para igualdade de gênero foi incorporada às políticas educacionais. Em estados como Pernambuco, programas de cultura de paz já fazem parte da rotina escolar. Países como Espanha e Suécia tratam o tema de forma transversal há décadas.
A mudança cultural não é imediata, mas é indispensável. Enquanto o feminicídio fizer parte da realidade, a indiferença será cúmplice. Proteger mulheres é dever do Estado e compromisso da sociedade. Cada feminicídio é uma falha coletiva — e enfrentá-la exige coragem, política pública e debate dentro e fora da sala de aula. Porque nenhuma mulher pode morrer por ser mulher.
