Se não aconteceu com você, certamente alguém próximo já teve algum problema de coluna. Estudos do Governo Federal apontam que as doenças da coluna são a segunda condição crônica mais prevalente no Brasil, afetando mais de 20% da população adulta. As lombalgias e as hérnias de disco estão entre as principais lesões, atingindo uma parcela significativa da população. Mais de cinco milhões de brasileiros convivem com hérnia de disco e outros dois milhões têm lombalgia. No entanto, é possível prevenir ou adiar o aparecimento dessas condições, adotando hábitos mais saudáveis no dia a dia.
A coluna é impactada pelo envelhecimento e pelo estilo de vida. Fatores como trabalho, alimentação (especialmente o excesso de peso) e sedentarismo (fraqueza muscular) interferem bastante. Os problemas nessa região têm várias causas e são muito comuns na população brasileira. O Brasil também possui uma grande proporção de pessoas economicamente ativas e as dores são frequentes no ambiente de trabalho (posturas inadequadas, esforço repetitivo, condições ergonômicas ruins, etc). Além disso, o país apresenta um aumento na expectativa de vida, contribuindo para o surgimento dessas alterações.
As principais doenças da coluna vertebral incluem o desgaste dos discos vertebrais, as deformidades e os traumas. O primeiro fator é mecânico. A coluna lombar, por exemplo, localiza-se na transição entre tronco e pelve e precisa suportar peso, absorver impactos, permitir mobilidade e manter estabilidade ao mesmo tempo. Atividades cotidianas, como sentar, levantar, carregar objetos, girar o tronco, dirigir, treinar ou ficar muito tempo parado podem influenciar no surgimento da dor. Praticamente todos os movimentos exigem sua participação constante. Sobrecargas repetidas, mesmo na ausência de um trauma significativo, podem gerar dor.
O segundo motivo é que, na maioria dos casos, a lombalgia é inespecífica. Ou seja, há dor, mas não há uma única lesão estrutural clara capaz de explicar o quadro. A causa muitas vezes não é claramente definida, o que contribui para a sua alta frequência e recorrência. Diferentes estruturas podem estar envolvidas simultaneamente, como discos intervertebrais, facetas, ligamentos, musculatura e estruturas neurais.
O terceiro fator é o acúmulo de riscos bastante comuns na população. Pessoas com trabalho fisicamente pesado, obesidade, tabagismo, comorbidades físicas e mentais e exposição ocupacional desfavorável têm maior probabilidade de apresentar dor lombar. Além disso, parcela importante da incidência global da lombalgia é atribuída a fatores modificáveis.
As hérnias e os bicos de papagaio
A hérnia de disco é um resultado da doença degenerativa do disco ou de algum trauma específico, sendo esse último menos comum como causa principal. O tratamento pode variar: conservador (como fisioterapia, fortalecimento muscular, adaptação das atividades diárias) ou, em alguns casos, cirúrgico (remoção da hérnia).
O bico de papagaio, por sua vez, nada mais é do que a resposta do nosso organismo na tentativa de estabilizar um segmento da coluna que apresenta instabilidade, geralmente associada à degeneração. Nosso corpo tenta, de alguma maneira, estabilizar essas vértebras formando tecido ósseo (os famosos bicos de papagaio) onde não era esperado. O tratamento deve ser encontrar a causa (instabilidade, doença do disco, etc.) e assim tratá-la. Isoladamente essa alteração não é considerada uma doença.
Tablets e celulares são vilões
O uso de celulares, tablets e outros aparelhos eletrônicos pode interferir na saúde da coluna pela má postura ao manuseá-los. Dados do DataSUS apontam que os problemas na coluna entre jovens de até 19 anos de idade cresceram 37,5% nos últimos cinco anos, devido ao uso excessivo de telas. A falta de ergonomia sobrecarrega a região anterior dos discos cervicais, podendo contribuir para o surgimento ou agravamento de alterações nessas estruturas.
Por fim, vamos ao início. Como prevenir os quadros de dor? Costuma-se recomendar a prática regular de atividade física com reforço muscular, seja com Pilates, yoga, hidroginástica ou musculação. Essas ações, aliadas a mudanças em hábitos alimentares, tabagismo e consumo de álcool, podem reduzir a dor. A prevenção sempre será a melhor alternativa, pois uma coluna fortalecida é menos suscetível à dor do que outra enfraquecida. Se você levar a sério essas dicas, aquela dor ficará apenas no “alguém próximo”.
*Dr. Matheus Araújo é médico traumatologista do Hospital Dom João Becker e foi o convidado da última edição do programa Papo de Saúde, transmitido pelo Instagram do Giro de Gravataí.
Clique aqui para assistir a entrevista completa com o especialista.
