Vivemos um tempo em que a educação é constantemente cobrada a ser interessante. Aulas dinâmicas. Metodologias ativas. Tecnologia. Engajamento.
Tudo isso é válido. Necessário, inclusive. Mas talvez estejamos olhando apenas metade do problema. Por que antes do interessante, existe o interessado. E essa não é uma responsabilidade exclusiva da escola. Ela começa muito antes — começa em casa.
Existe uma inversão silenciosa acontecendo: espera-se que o professor encante, prenda, dispute atenção com um mundo cada vez mais acelerado… enquanto o aluno, muitas vezes, não é provocado a construir o próprio interesse.
E interesse não se entrega pronto – se forma e desenvolve na relação, na curiosidade estimulada, na presença de alguém que olha, escuta e se importa.
Por isso, talvez a pergunta não seja apenas “como tornar a aula mais interessante?”, mas também “como estamos formando pessoas interessadas?”. E aqui entra um ponto decisivo: a família. Pais não precisam competir com as telas na estética. Vão perder. O celular é rápido, colorido, infinito. Foi feito para prender.
Mas há algo que nenhuma tela substitui: vínculo. Pais que são verdadeiramente interessados por seus filhos — que perguntam, que escutam, que participam, que conhecem o universo deles — não disputam atenção… constroem conexão.
E conexão gera interesse. Quando há vínculo, o filho se abre. Quando há presença, o aluno responde. Quando há relação, o aprendizado encontra espaço.
O problema não é a existência das telas. É a ausência de presença. Estamos vivendo uma geração altamente estimulada… e, ao mesmo tempo, profundamente carente de atenção real. E isso exige escolha.
Escolha de estar. Escolha de parar. Escolha de construir tempo de qualidade. Tempo para conversar sem pressa, para cozinhar juntos, brincar, correr, para dividir experiências. E, por que não, até entrar no mundo deles — sentar ao lado e jogar um videogame junto. Não para vigiar, mas para compartilhar.
Educar não é afastar mundos. É criar pontes. A educação de verdade não começa no conteúdo. Começa na relação. E é nessa relação — entre o interessado e o interessante — que se constrói tudo aquilo que realmente fica.
*Junior Damiani é educador físico, fundador da VOM (Viva o Movimento) e professor do Colégio Dom Feliciano.
