No último fim de semana, enquanto a chuva ditava o ritmo na casa da praia, me vi tentando escolher o que assistir na Netflix. Quarenta minutos de navegação e eu ainda não havia dado o “play”. E quem nunca?
Não faltava opção. Na real, era o contrário: sobravam possibilidades. Séries premiadas, lançamentos, histórias “imperdíveis”. Quanto mais eu navegava, mais difícil ficava decidir.
Ali percebi algo simples e desconfortável: o problema não era o catálogo. Era o excesso sem critério. Faltava decisão.
Vejo isso acontecer com empresários experientes. A empresa está de pé. O faturamento é bom. O mercado responde. Mas existe uma sensação silenciosa de que o jogo perdeu tração. Não é crise. Não é incompetência. É excesso de rota possível.
Expandir ou enxugar. Contratar ou simplificar. Diversificar ou concentrar. Quanto mais experiência se acumula, mais caminhos aparecem e o excesso começa a pesar. Reuniões se multiplicam. Estudos se aprofundam. Novas análises surgem. Parece prudência. Muitas vezes é apenas adiamento.
O empresário começa a rodar entre hipóteses, como eu rodava entre categorias naquela tarde chuvosa. E enquanto navega, o tempo passa.
O risco não está em ir devagar. O risco está em acelerar antes de decidir qual jogo se quer jogar. Crescer sem essa definição custa caro. A estrutura incha, a complexidade aumenta, a margem afina e a energia do dono se dispersa.
Crescimento não resolve dúvida estratégica. Amplifica. Na Netflix, eu poderia clicar em qualquer coisa. O máximo que perderia seriam duas horas. Empresa não oferece esse luxo.
Empresa não quebra por falta de esforço. Quebra quando o dono acelera sem saber qual jogo decidiu jogar. Clareza não é luxo intelectual. É disciplina estratégica.
Eu elegi clareza como minha palavra do ano. Qual palavra vai dar direção ao seu?
*Jonas Matos é empresário e conselheiro estratégico de outros empreendedores. Fundador do Grupo MegaOffice e sócio da MLS – Mentoring League Society.
