Durante anos, bastava anunciar um live-action de anime para os fãs entrarem automaticamente em modo de pânico. Era quase um reflexo condicionado: expectativa baixa, memes ácidos e aquele pensamento inevitável — “lá vem mais uma adaptação que ninguém pediu”. Mas algo curioso começou a acontecer nos últimos anos: a Netflix, justamente a plataforma mais criticada nas primeiras tentativas, começou a virar o jogo. E não foi pouca coisa.
De “One Piece” a “Yu Yu Hakusho”, passando por “Avatar: A Lenda de Aang” (ok, não é anime, mas tem alma de um), a gigante do streaming finalmente entendeu que adaptar esse universo exige mais do que um figurino bonito e efeitos chamativos. E talvez, só talvez, estejamos vivendo uma nova era em que “live-action de anime” não significa mais tragédia anunciada.
Respeito ao material original (amém!) foi uma das principais apostas, parece simples, mas demorou: a Netflix finalmente percebeu que fãs de anime conhecem cada detalhe, cada arco, cada expressão de dor e cada mecha de cabelo dos personagens. Quando mexem demais, o fandom reage. Quando respeitam, o fandom abraça.
Em “One Piece”, por exemplo, o cuidado em reproduzir a essência emocional de cada personagem — não apenas o visual — foi o que conquistou o público. Zoro continua sério, Luffy continua impossível, e Usopp continua… Usopp. Nada mais justo.
Outra mudança evidente é o envolvimento de equipes que genuinamente entendem o universo dos animes. Chega de produtores encarando o projeto como uma “releitura livre” ou “nova visão”. Agora, quem lidera está mais preocupado em traduzir do que reinventar. Showrunners que realmente gostam do que estão fazendo…
Quando o criador de “One Piece”, Eiichiro Oda, aparece na sala de produção dando pitaco, você sabe que o projeto está indo no caminho certo. Por muito tempo, adaptar animes significava escolher entre efeitos especiais convincentes, pagar o salário dos atores e torcer para o público não perceber que o monstro é claramente um ator fantasiado. A Netflix aprendeu que não dá mais para economizar. E quando investe, a diferença aparece: coreografias mais fluidas, criaturas menos esquisitas, cenários que não parecem saídos de um cosplay de garagem. Orçamento que finalmente acompanha a ambição. “Yu Yu Hakusho” foi o exemplo perfeito: talvez não seja uma obra-prima, mas entregou um nível visual digno de respeito — e de maratona.
Outro acerto importante: entender que um anime e uma série live-action são bichos diferentes. E que algumas coisas simplesmente não funcionam na vida real. A Netflix começou a selecionar o que é essencial, o que pode ser melhorado e o que precisa de nova abordagem. Resultado? Séries mais equilibradas, que mantêm a essência do anime, mas respiram com personalidade própria.
Nos primórdios, muita adaptação ignorava os fãs — e pagava o preço. Hoje, a Netflix faz exatamente o contrário: monitora redes, escuta pedidos, acompanha teorias, responde críticas e ajusta o curso quando necessário. O fandom virou bússola, não obstáculo. E convenhamos: quando o público percebe que foi ouvido, ele apoia até os tropeços. Fandom como aliado, não como inimigo.
Ainda não estamos em um mundo perfeito — sempre existe o risco de uma adaptação escorregar feio na banana da nostalgia. Mas a impressão geral é que a Netflix acertou a fórmula: respeito + técnica + entusiasmo + investimento. Será que vem aí uma era de ouro dos live-actions? É difícil prever. Mas, pela primeira vez, os fãs de anime estão empolgados quando uma nova adaptação é anunciada. E isso, por si só, já parece um pequeno milagre surgindo…
*Andrei Viana é pedagogo e produtor de conteúdos relacionados à cultura geek. Criador do canal do YouTube PadaYou, também participa da programação e realiza a cobertura de eventos do segmento. No Instagram @1padayou, divulga diversos materiais sobre o universo nerd.
