As infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) se mantêm entre as questões que mais chamam a atenção das autoridades de saúde no Brasil e no mundo. Dados do Ministério da Saúde indicam que mais de 400 mil casos de sífilis e HIV são diagnosticados por ano em nosso país, sendo cerca de 50 mil no Rio Grande do Sul. Existem também outras ISTs, como HPV, clamídia, gonorreia e herpes genital, o que aumenta consideravelmente a estatística. A prevenção e o devido tratamento são as principais alternativas para a redução desses índices.
Aqui em nosso Estado, a maior preocupação é o aumento expressivo da sífilis e a manutenção de taxas relevantes de HIV, especialmente em populações mais vulneráveis. O maior desafio hoje não é apenas o tratamento — que evoluiu muito —, mas, sim, o diagnóstico tardio, a baixa adesão à prevenção combinada (Profilaxia Pré-Exposição – PrEP) e o estigma, que ainda afastam as pessoas do cuidado. É preciso evoluir na cultura da prevenção e do cuidado entre os gaúchos.
No caso da sífilis, por exemplo, os principais riscos, caso não seja identificada e tratada, são complicações neurológicas e cardiovasculares. Uma população que preocupa ainda mais é a das gestantes, pois teme-se a versão congênita da infecção, que traz graves consequências para o bebê. A sífilis é a IST que mais cresce em nosso país e, paradoxalmente, tem um tratamento simples, quando diagnosticada precocemente. A penicilina benzatina é uma droga eficaz e acessível, que está disponível em todas as unidades de saúde. Outras ISTs também preocupam durante a gestação, pois podem causar aborto, óbito fetal, nascimentos prematuros e malformações. O acompanhamento pré-natal é fundamental para eliminar qualquer risco dessas complicações.
O Papilomavírus Humano (HPV) é outra preocupação, quando se abordam as ISTs. Ele está diretamente relacionado ao câncer de colo de útero nas mulheres e aos cânceres anogenitais e orofaríngeos nos homens. Não existe “cura” para o vírus em si, mas o organismo pode eliminá-lo naturalmente, e as lesões causadas pelo HPV têm tratamento. Além disso, hoje se fala muito e se incentiva a prevenção, por meio da vacinação, que é altamente eficaz. Ela é indicada a partir dos nove aos 45 anos de idade e está disponível no SUS para jovens (meninas e meninos) de 9 a 14 anos e para pessoas vivendo com HIV até os 45 anos, além de alguns outros casos individualizados. O ideal é a aplicação antes do início da vida sexual, mas mesmo quem já teve HPV deve se vacinar, pois pode não ter tido contato com todos os tipos cobertos.
Tabus desafiadores
A prevenção das ISTs hoje é combinada em quatro estratégias: vacinação, métodos de barreira (preservativo), testagem regular e o uso da PrEP em populações de alto risco. Um mito importante a ser quebrado é o de que nos infectamos por má higiene. Um vaso sanitário público, por exemplo, não transmite IST. A infecção se dá pela via sexual. Esse é um dos tantos tabus que tornam o tema desafiador para os profissionais de saúde. É preciso trazer essas informações à tona constantemente e abordar sexualidade sem julgamento, para que mais pessoas sejam vacinadas e testadas, consolidando a prevenção e o diagnóstico precoce. Além disso, garantir adesão ao tratamento e rastreamento de parceiros também é uma dificuldade frequentemente encontrada.
Falar sobre ISTs ainda é tabu nas famílias. Muitos pais ainda enfrentam barreiras culturais para tratar do assunto com seus filhos que estão iniciando a vida sexual. É preciso avançar ainda mais na mudança desse comportamento. E, embora os jovens sejam vulneráveis, hoje também se observa o aumento em adultos e idosos, ou seja, o risco está mais ligado ao comportamento do que à idade.
*Dra. Bruna Rossi é médica ginecologista no Hospital Dom João Becker. A especialista foi a convidada da última edição do Papo de Saúde, um programa realizado em parceria pelo hospital e o Giro de Gravataí.
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