Da paixão ao negócio (e a conta que ninguém conta)

 

Se você abrir as redes sociais agora, vai encontrar dezenas de frases bonitas sobre “viver do que se ama” ou “transformar seu talento em império”. Venderam a ideia de que, para uma mulher empreender, basta ter coragem, paixão e um sonho no peito. Pois bem, eu preciso lhe dar um banho de realidade: só a paixão não paga conta.

Muitos dos negócios femininos que vejo nascer em Gravataí e região começam da forma mais bonita e genuína possível. Nasce na mesa de casa, na madrugada silenciosa enquanto os filhos dormem, na receita de família ou na vontade urgente de ter independência financeira. No início, essa faísca e muita vontade fazer dar certo é o que faz a roda girar.

Mas existe um dia — e se você empreende, sabe exatamente de qual dia estou falando — em que a conta não fecha. O dia em que a exaustão bate na porta e você percebe que virou escrava da sua própria paixão, trabalhando 14 horas por dia para pagar boleto e vendo zero margem de lucro no final do mês.

Foi aí que a gente caiu na armadilha.

A ilusão de que cobrar barato é “ajudar”

O maior gargalo das mulheres que empreendem por amor não é a falta de talento; é o medo da gestão. E o sintoma mais doloroso disso está na precificação. Fomos socialmente educadas para servir, cuidar e sermos agradáveis. Quando levamos essa mentalidade para os negócios, o resultado é desastroso: cobramos cobrindo apenas o custo do material, doamos a nossa hora, pedimos desculpas antes de mandar o orçamento e morremos de medo de o cliente achar caro.

Transformamos o nosso conhecimento em um ato de caridade sem nem perceber. Mas precificar não é ganância, é sobrevivência e estratégia. Quando você não precifica o seu tempo, a sua energia e a sua margem de lucro com justiça, você não está sendo “boazinha” com o mercado — você está decretando a data de validade da sua própria empresa.

Processo não mata a alma, salva o negócio

Existe um mito absurdo de que colocar processos, olhar para planilhas e exigir margem tira a “alma” ou o “afeto” de um negócio humanizado. Por aí você acredita nessa também?

Falar de estratégia é a única coisa que vai proteger o seu sonho de morrer de exaustão. Parar de gerir na intuição e assumir a cadeira de diretora da sua própria vida exige encarar os números de frente. Exige separar o CPF do CNPJ, aprender a dizer “não” para clientes desalinhados e entender que se o seu negócio depende do seu sacrifício pessoal contínuo para parar em pé, ele não é um negócio — é um cativeiro com CNPJ e alguém vai sair demitido (e eu espero que não seja sua saúde física, nem a mental).

Empreender é um ato profundo de coragem e autoconhecimento. Tem dias de dúvida e choro, mas também a beleza indescritível de ver algo ser construído pelas suas próprias mãos.

Só que dar o salto da paixão ingênua para o negócio estruturado não é apenas para fazer a empresa crescer. Não é para provar nada ao mercado, nem apenas para honrar o sonho que virou realidade. É por sobrevivência. É para conquistar o que você merece. É para inspirar tantas outras a chegarem onde você chegou.

E se você acredita que é capaz, ótimo. Se não acredita, ninguém vai acreditar por você. Essa decisão é sua — e só sua. Escolha o tamanho do seu sonho.

*Yasmine Santos é jornalista e especialista em Marketing Estratégico, com especializações em Jornalismo Digital, Marketing Digital e Lançamentos Digitais. Também é fundadora da Cinescópio Produções e apresentadora dos programas Notável Podcast e Pod Assar. Atua como idealizadora de projetos de comunicação, liderando campanhas que conectam marcas, empresas e pessoas através da autenticidade.

 

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