Em Cachoeirinha, Fundação Palmares participa de roda de conversa sobre o Movimento Negro na região

 

O desconhecimento da própria história e o risco de apagamento da memória negra de Cachoeirinha foram alguns dos principais temas debatidos durante a roda de conversa sobre o Movimento Negro na cidade, realizada nesta quinta-feira (11/6), no Espaço Rosane Castro, por meio do gabinete do vereador Leonardo da Costa. O encontro reuniu 28 participantes de Cachoeirinha, Gravataí, Alvorada, Viamão e Porto Alegre e apontou a necessidade de fortalecer a articulação do movimento negro e da luta antirracista na Região Metropolitana.

Entre os temas levantados, chamou atenção a lembrança de que Cachoeirinha abrigou um dos maiores escravocratas do Rio Grande do Sul, o comendador Baptista, que chegou a manter mais de 70 pessoas escravizadas em suas propriedades, um capítulo da história local pouco conhecido pela população. Participantes também alertaram para o desaparecimento gradual de estruturas históricas associadas a esse período, o que descrevem como forma de apagamento da memória coletiva.

Ao longo de três horas de atividade, os participantes compartilharam reflexões sobre a história da população negra, os desafios contemporâneos e a importância da organização coletiva. Uma das principais percepções construídas durante a roda de conversa foi a necessidade de ampliar a articulação do movimento negro na cidade e a capacidade de incidência política e social no município.

A presença de participantes de diferentes cidades também trouxe uma dimensão regional ao debate. O grupo destacou que a maioria dos municípios presentes compartilham uma história comum marcada pelos caminhos da população negra ao longo da Bacia do Rio Gravataí. “Parece algo distante, mas tem algo que nos conecta. O rio nos une. E dentro dessa bacia a gente tem a história, os quilombos, e as pautas ambientais atuais”, citou o vereador Leonardo da Costa.

A frase sintetizou a compreensão de que as comunidades negras da região possuem laços históricos, culturais e territoriais que ultrapassam os limites geográficos dos municípios, formando uma rede de resistência e pertencimento construída ao longo de gerações. Entre as falas que marcaram a atividade esteve a da liderança quilombola Berenice de Deus, do Quilombo da Anastácia, que refletiu sobre as desigualdades históricas enfrentadas pela população negra. Ao abordar os desafios enfrentados pelas comunidades quilombolas na defesa de seus territórios, ela também destacou “a gente tem que ter sabedoria para saber lidar com gente que tem posse, dinheiro.”

Já Sor Eduardo, da ONG Umbuntu, de Alvorada, provocou uma reflexão sobre a necessidade de superar visões eurocêntricas na compreensão da história e da sociedade brasileira, valorizando os saberes produzidos pelas populações negras. “Nosso sonho é ter os mesmos direitos. Não se tornar opressor por ter sido oprimido. O sonho do oprimido é acordar do pesadelo”, declarou.

Também teve destaque a contribuição de Maria Conceição, representante regional da Fundação Cultural Palmares, que ressaltou a importância da aliança entre pessoas negras e não negras na construção de uma sociedade mais justa, sem que isso signifique retirar o protagonismo daqueles que vivenciam o racismo. “A gente não precisa que os brancos falem por nós, mas que nos apoiem e estejam conosco”, disse. “A nós não era dado o direito de errar. Quem tem bom coração, que lute, que saiba que é possível uma sociedade justa”, acrescentou.

Ao final da atividade, os participantes manifestaram o desejo de aprofundar a relação com a Fundação Cultural Palmares. A roda de conversa reafirmou a importância dos espaços de encontro, escuta e construção coletiva, apontando que a união entre os diferentes territórios pode ser um caminho fundamental para fortalecer a luta por igualdade racial e reconhecimento histórico.

*Informações e fotos da assessoria do vereador Leonardo da Costa.

 

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